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Resumo
Bruns, M.A.T. educação sexual e deficiência visual:o diálogo do silêncio x o silêncio do diálogo.
O objetivo deste estudo foi
conhecer e compreender a orientação sexual propiciada por
mães de filhos portadores de deficiência visual.
Na perspectiva fenomenológica,
analisaram-se vinte discursos de mães de deficientes visuais. As
recorrências nos vários discursos permitiram conhecer que
a desinformação sobre a sexualidade em geral impede o diálogo
entre mãe e filho(a). Tais recorrências evidenciaram igualmente
que a repressão sexual alicerça os estigmas e os preconceitos
da educação sexual de deficientes visuais.
Unitermos: Deficiência
visual, educação sexual, estigma, preconceitos.
SEXUAL EDUCATION AND VISUAL
IMPAIREMENT: THE DIALOG OF SILENCE X THE SILENCE OF DIALOG
Maria Alves de Toledo Bruns
Sumary
Bruns, M.A.T. sexual education and visual impairement: the dialog of silence x the silence of dialog.
The objective of this study was to analyze and understand the sexual orientation given by mothers to sons and daughters with visual deficiencies. From a phenomenoligical perspective the conversations of twenty mothers of visual deficients were analyzed. The convergences of these conversations made clear that disinformation about sexuality in general impedes dialoques between mothers and off-spring. Evidence was obtained showing that sexual repression stems from stigmas and preconcepts about sexual education of persons with visual deficiencies.
Key-words: Visual deficiency, sexual education, preconcepts stigmas. Introdução
A história da humanidade
envolve a história dos deficientes, a qual se encontra em constantes
modificações: variando de cultura para cultura, reflete crenças,
valores, ideologias que, materializadas em práticas sociais, estabelecem
modos diferenciados de relacionamentos entre o deficiente e o não
deficiente.
Silva, apud Carmo (1989),
em seu estudo sobre o deficiente através dos tempos, revela que
na Antigüidade, de um modo geral, existiam dois modos de relacionar-se
com as pessoas que, por alguma razão, afastavam-se dos padrões
desejados, aceitos e ditos "normais", ou seja, aqueles que não correspondiam
às exigências do meio, tais como os velhos, os doentes e os
portadores de alguma deficiência. Diante dessa categoria, expressavam
ou tolerância, apoio, ou mesmo menosprezo e até eliminação.
Esse autor relata que algumas
tribos nômades abandonavam seus doentes, velhos e deficientes em
lugares inóspitos, tendo em vista a dificuldade de transporte, ou
até mesmo pela exposição a riscos a que os deficientes
se expunham diante da possibilidade de um confronto com animais ferozes
e/ou com uma tribo inimiga. Para os esquimós (habitantes da região
Ártica da América do Norte) os deficientes e os velhos eram
deixados em lugares de passagem dos ursos brancos, animais considerados
sagrados, para serem devorados, pois eles acreditavam que assim lhes estariam
oferecendo uma alimentação saudável, cuja recompensa
seria uma melhor qualidade de sua pele, a qual, após a morte, seria
utilizada pela própria população como roupas, botas,
ou no revestimento interno dos iglus.
O conto popular japonês,
"Narayama", relatado por Simone de Beauvoir (1976) e transformado em filme
na década de 80, mostra o conflito que o primogênito vivencia
em obedecer às tradições culturais que consistiam
em levar sua mãe para morrer no alto de uma montanha. A própria
mãe se envergonha por não se sentir decrépita, visto
possuir ainda todos os dentes, mas que ao mesmo tempo solicita ao filho
que cumpra o ritual sagrado.
Retornando a Silva, deparamos
com outros exemplos de tribos vivendo em estado primitivo no sul do Sudão,
no Congo e ao Norte da Tanzânia, cuja prática social em relação
à deficiência é a da aceitação. Para
essas tribos, o corpo deficiente materializava as forças dos maus
espíritos e desse modo os outros corpos podiam se expressar normalmente.
Quanto aos povos hebreus,
esse autor relata que "... o homem de qualquer família - fosse coxo,
cego, corcundo, pé ou mão quebrada, não era digno,
puro para praticar tal ação". Acreditavam, assim, que um
corpo portador de qualquer desarmonia fosse detentor de poderes oriundos
dos demônios, cujas impurezas e pecados eram expressos pelas "marcas",
sinais corporais que cristalizavam a evidência de maus espíritos.
No decorrer da história,
alguns homens, os detentores do poder, passaram a adotar a amputação
de alguma parte do corpo (orelha, pé, dedo, mão), como uma
prática punitiva que lhes permitia identificar não só
o lugar social ocupado pela vítima, como também identificar
a transgressão às normas e às leis.
Essa prática foi
muito usada entre os escravos e continua sendo adotada até hoje
por alguns países do Oriente Médio. O infanticídio
de meninas praticado na Índia revela também a discriminação
em relação à mulher: a mutilação sexual
(ablação do clitóris no Egito), atinge aproximadamente,
segundo O.M.S. (1979), 80% da população feminina. Desse modo,
não é necessário ter um corpo portador de alguma deficiência
física para sofrer as discriminações. Muitas vezes
o "status" social, cujos atributos não atendiam e/ou não
atendem aos valores morais, crenças, tradições e modelos
estéticos "ditos normais" e desejados pelo meio social, encarregam-se
de excluir e de categorizar tais pessoas. A título de ilustração,
cito a condição das prostitutas, as "pornai", como eram chamadas
na Grécia antiga "... as pornai usavam uma sandália na qual
impresso no reverso da sola, estava um convite bastante claro... Nas ruas
de terra batida, à medida que elas passavam, ficava escrito no solo
a expressão "segue-me". Era um convite para o transeunte que vinha
atrás" Cavalcanti (1990:59).
De um modo geral, os estigmas
se fazem presentes em relação aos velhos, negros, índios,
deficientes, homossexuais, ou seja, os grupos minoritários, às
vezes a própria "emancipação profissional e sexual
da mulher provoca no seu meio, ainda hoje, reação de exclusão
e marginalidade" Bruns e Grassi (1992).
Postura idêntica registra-se
ainda hoje em relação às pessoas que conseguiram refazer
seus projetos de vida e que, ao chegarem aos 60, 70 anos expressam uma
alegria de viver, seja por se permitirem novos envolvimentos afetivo-sexuais,
seja por quererem aprender a dançar ou mesmo a realizar viagens.
Esse modo de ser, provoca reação de espanto e surpresa por
parte dos mais jovens, ou até mesmo por parte dos próprios
pares.
Esse modo preconceituoso
de nos relacionarmos conosco e com o outro é mantido e alimentado
pela ideologia do déficit, num círculo vicioso que se encontra
ancorado nas exigências produtivas de uma "sociedade de consumo,
que só reconhece o indivíduo na medida em que ele produz"
Beauvoir (1970), e como os velhos e deficientes não "produzem",
podem ser descartados. Ao mesmo tempo, essa mesma sociedade legitíma
o ato de isolá-los e justifica a criação de instituições
asilares.
Parece que a prática
social de categorizar, rotular as pessoas em normais e anormais, fortes
e fracas, belas e feias e/ou por não possuírem um corpo detentor
de uma cota de energia que lhes permita a sobrevivência, não
foi uma prática somente de sociedades primitivas consideradas "atrasadas",
cujas explicações estariam ancoradas na ausência de
conhecimentos científicos e no escasso controle do homem em relação
aos meios de produção.
Sem dúvida, houve
mudanças que possibilitaram também muitos ganhos. Cite-se
o período renascentista que representa um marco, um revisar dos
preconceitos, normas, estatutos, crenças e práticas sociais
em relação ao modo de relacionar-se com a deficiência,
que até então era explicada como sendo obra de demônios
e/ou do divino.
Entretanto, um olhar atentivo
revela que as práticas discriminatórias continuam sendo vivenciadas
ainda hoje por vários grupos de pessoas pertencentes à sociedade
moderna, cujo avanço científico-tecnológico está
concentrado em grandes conglomerados financeiros com poder de controlar
o mercado mundial. Conta, ainda, com a tecnologia eletrônica, com
agências de publicidades que se encarregam de criar desejos. Desejos
que são vendidos por intermédio dos fascínios das
imagens, as quais vendem poder, ilusão de felicidade e segurança.
Esse desenvolvimento provoca mudanças no modo de pensar, sentir
e agir e se fazem presentes nas relações entre as pessoas.
Estando perplexa diante
dessas colocações, que deixam uma grande lacuna com relação
à questão da deficiência visual, indago: Como os familiares,
os portadores de visão se relacionam com um portador de deficiência
visual? Estariam essas mudanças deslocando os estigmas e estreitando
assim as relações entre videntes e não videntes? Como
ocorre a relação de mães portadoras de visão
com filhos portadores de deficiência visual? Essas questões
motivam- me a continuar essa investigação. Entretanto, faz-se
necessário dizer que centrarei minha busca em torno da sexualidade,
temática de meu interesse específico. Nesse sentido busco
compreender como ocorre a orientação sexual de deficientes
visuais. Isto é, quais as dificuldades e/ou facilidades vivenciadas
pelos familiares, em especial pelas mães, por serem elas, as pessoas
a quem, normalmente, a sociedade, através dos tempos, outorgou o
papel de responsável pela educação da prole.
Tendo em vista, a ausência
de bibliografia e estudos que enfoquem a sexualidade de deficientes visuais
, parecem-me muito significativas essas indagações, pelas
quais vislumbro a compreensão dessa relação, como
também pela possibilidade de tais indagações virem
a provocar uma reflexão, fornecendo pistas sobre a educação
sexual de deficientes visuais.
A sexualidade, segundo Chauí
(1989:15) "Não se reduz aos órgãos genitais (ainda
que estes possam ser privilegiados na sexualidade adulta) porque qualquer
região do corpo é suceptível de prazer sexual, desde
que tenha sido investida de erotismo na vida de alguém, e porque
a satisfação sexual pode ser alcançada sem a união
genital. Ela é polimorfa, polivalente, ultrapassa a necessidade
fisiológica e tem a ver com a simbolização do desejo".
Está submetida, portanto, às interdições e
transgressões, diferenciando-se de cultura para cultura e de época
para época.
Isso significa que a religião,
a moral, a política e a própria ciência se encarregam
de explicitar o como, o modo de lidarmos com a nossa sexualidade, estabelecendo
regras básicas a serem seguidas. Os tabus, preconceitos e estigmas
perpassam os séculos e habitam o universo das relações,
sejam elas familiares, escolares ou sociais.
O mundo ocidental é
marcado e demarcado pelo poder da pedagogia cristã, que, com seus
eficazes métodos de continência (moderação)
e de abstinência (supressão), controla e disciplina as práticas
sexuais (Chauí, 1980).
Segundo Bernardi (1985:25)
"A família tende a imprimir na personalidade dos subordinados uma
determinada estrutura psíquica, aprovada pela sociedade, e para
isto vale-se de meios sugeridos pela própria sociedade". Isto significa
que, ao nascer, o deficiente visual se encontra inserido num sistema de
relações e de significações sociais o qual
será o alicerce, o lugar em que organizará e se estruturará
sua própria identidade.
Nessa perspectiva histórico-cultural,
a família tende a imprimir, geralmente, aos portadores de deficiência
visual a idéia de que são incapazes, inábeis, inseguros
e assim vão sendo "educados" para serem indefesos, dependentes e
até considerados por alguns como sendo assexuados e desinteressantes.
Essas contingências,
em geral, impedem o deficiente de se desenvolver e de vir a estabelecer
consigo próprio e com o outro uma relação que lhe
possibilite expressar-se como um ser sexuado. Ao contrário, há
um ocultamento do desejo. O prazer e o erótico ficam como vivências
a serem experienciadas somente pelos ditos "normais". Como nos dizeres
de (Vash: 1991:83): "Numa sociedade que venera gente bonita, defeitos sérios
parecem intoleráveis".
Isso ocorre pela ausência,
pela falta de acesso a informações das pessoas que são
responsáveis pelos deficientes visuais, as quais desconhecem que
a criança portadora de deficiência visual deveria ser lançada
a infinitas situações de desafios e estímulos, iguais
ou superiores aos da criança dotada de visão normal, já
que lhe falta um dos sentidos - a visão -, o qual é, sem
dúvida, de máxima importância para estabelecer as matizes
de significações, mas que, no entanto, não é
o único. Esquecemos que "Todo gesto ou processo do organismo...
pode tornar-se material para a expressão da atividade psíquica,
posto que pode adquirir um valor semiótico"(Bakhtin, 1981:52). Por
outro lado, Goffman (1980) diz que a familiaridade com a deficiência,
não significa necessariamente a redução do estigma.
Os relatos, a seguir, de
familiares de deficientes corroboram tal afirmativa. Bruns, M.A.T. (1995)
relata que ao dirigir-se a uma mãe de deficiente visual, perguntou-lhe:
Quantos filhos você tem? Ela respondeu: "Tenho quatro". Essa enunciação
não esclareceu o suficiente. Em seguida, solicitou-lhe esclarecimentos,
indagando-lhe: Você tem quatro filhos, sendo que uma é cega
ou tem quatro e mais uma que é cega. A mãe respondeu: "É
...Eu tenho cinco, só que uma é cega".
Em relação
a um irmão de deficiente visual a situação se manteve
a mesma. Ao inquiri-lo sobre quantas pessoas dessa família trabalhavam,
ele respondeu: "Eu e meu pai". Em seguida foi-lhe perguntado: E o Louro?
(irmão do deficiente visual, já entrevistado por esta pesquisadora,
o qual estava empregado numa empresa). "Ele? É cego". O estigma
de incapaz, inválido, incompetente é tão arraigado
em nossa moderna sociedade que atinge até mesmo aquele que se faz
independente economicamente. No decorrer dessa entrevista, a pesquisadora
obteve informação de que o salário de Louro era maior
que o do irmão dotado de visão.
Esses depoimentos revelam
quão difícil e preconceituosa é a relação
entre deficientes e não deficientes e evidencia também que
a família reproduz a ideologia do déficit, isto é,
ao olhar para "a pessoa portadora de deficiência visual, vê
o que lhe falta, sua incompletude, a pessoa torna-se apenas deficiente,
perdendo suas características de SER"(Bruns e Leal, 1994:33).
Em relação
à sexualidade, os discursos a seguir de mães de filhos portadores
de deficiência visual possibilitaram-me uma visão real em
relação à educação sexual que ora ocorre.
Sujeitos
Participaram deste estudo
20 mães, que se dispuseram a falar a respeito da orientação
sexual que ofereciam a seus filhos(as) portadores de deficiência
visual.
O encontro com essas mães
ocorreu por intermédio do contacto da pesquisadora com profissionais
de uma instituição que se dedica à formação
escolar de deficientes visuais em uma cidade do interior do Estado de São
Paulo. Após tomarem ciência de que o objetivo desse estudo
era o de compreender o modo, a maneira como tratavam de assuntos referentes
à sexualidade com seus filhos, foram convidadas a falar das dificuldades
e/ou facilidades vivenciadas no universo familiar.
A idade das mães
entrevistadas variou entre 35 e 53 anos e o grau de escolaridade, do 1º
grau incompleto ao 3º grau incompleto. Todas eram casadas e tinham
em média três filhos. Ocorreram quatro reuniões, nas
quais as mães expressaram o como ocorria a educação
sexual. O diálogo foi mediado pela questão orientadora: "Fale
a respeito do modo como você orienta seu filho(a) sobre os assuntos
relacionados a sexo, tais como: gravidez, doenças sexualmente transmissíveis,
aborto, desejo sexual, masturbação, relação
sexual".
Trajetória Metodológica
Os diálogos foram gravados, transcritos e analisados segundo os momentos da trajetória fenomenológica apresentada por Joel Martins, no livro "Um Enfoque Fenomenológico do Curriculum: Educação como Poiéses" (1992), que são: descrição, redução e a compreensão, que envolve uma interpretação.
Momentos da análise fenomenológica
Descrição ou depoimento: Constitui um dado de importância significativa para a pesquisa fenomenológica. Permite o acesso à vivência do fenômeno. Isto quer dizer que o sujeito que descreve sua experiência é situado e que os significados das suas vivências emergem do seu real vivido.
Redução: Este momento constitui o que Husserl chamou de "epoché" que significa suspensão ou parada, uma saída da maneira comum de olhar e de abandonar os preconceitos em relação ao fenômeno que está sendo analisado. O resultado da redução é um conjunto de asserções significativas para o pesquisador, as quais apontam para a experiência do sujeito, para a consciência que este possui do fenômeno.
Compreensão: Envolve sempre uma interpretação; é uma tentativa de explicitar o "significado" que é essencial na descrição e na redução, como uma maneira de investigação da experiência.
Apresentação dos depoimentos
Das vinte mães de
deficientes visuais que participaram deste estudo, apenas uma expressou
que, apesar de não ter recebido em sua vida nenhuma orientação
de como abordar os assuntos relacionados à sexualidade em geral,
e, muito menos, relacionados a pessoas portadoras de deficiência
visual, estabeleceu no decorrer do relacionamento mãe-filho, uma
"orientação sexual"; as outras dezenove revelaram que não
falavam desses assuntos com seus filhos(as).
Cada mãe recebeu
um pseudônimo para que suas identidades pudessem ser preservadas.
Faz-se necessário
dizer que os discursos foram muito repetitivos, o que me levou a selecioná-los
para apresentá-los. Dessa forma, o leitor entrará em contato
com os depoimentos de: "Jô", "Rô", Filô", "Má",
"Iraí", "Manaí", "Jací", "Morena", "Narci" e "Rosa".
Jô, 35 anos - 2º grau completo - "Não sei como falar, nem para os meus filhos que enxergam, pro cego então... é um problema". (filho 8 anos)
Rô, 49 anos, 2º grau incompleto - "Nesses assuntos eu não toco". (filho 12 anos)
Filô, 40 anos, 2º grau incompleto - "Tenho vergonha, não tô preparada". (filho 8 anos)
Má, 45 anos, 1º grau incompleto - "É muito difícil... eu não sei falar sobre isso". (filho 16 anos)
Iraí, 36 anos, 1º grau incompleto - "Sei lá... eu entrego a Deus". (filha 15 anos)
Manaí, 51 anos, 3º grau incompleto - "Ah! Deus se eu soubesse eu falaria disso". (filha 12 anos)
Jaci, 53 anos, 3º grau incompleto - "Eu não sei falar sobre isso... eu aprendi sozinha". (filha 19 anos)
Morena, 52 anos, 1º grau incompleto - "Eu tenho pena dele, mais o que eu vou fazer? eu não sei falar nada pra ele. Em casa isso não é falado". (filho 17 anos)
Narci, 49 anos, 2º grau incompleto - "Eu já peguei ele pegando lá, o que vou fazer?" (filho 13 anos)
Rosa, 45 anos, 2º grau
completo - "... após eu acreditar que meu filho era cego, pensei...
ele precisa receber o que há de melhor em relação
a tudo... ele precisa saber que homem é diferente de mulher... Você
sabe, cego vê com as mãos. É difícil mas eu
fiz o seguinte: falei com seu pai: Nosso filho precisa pegar em você,
ele ficou vermelho de vergonha, mas eu insisti e assim na hora do banho,
de um modo natural aconteceu o reconhecimento do corpo do adulto.
Aí aconteceu o que
eu nem esperava, meu filho falou ... Mãe eu conheci o pai, mas não
sei nada da mulher, e falou: Como você é? Fiquei nervosa e
respondi a ele que era verdade. Ele percebeu meu nervosismo e falou: A
senhora tá nervosa? Respondi: estou, porque não sei falar
direito com você, mas prometo que vou resolver esse assunto. De noite
fiquei pensando... Se cego vê com as mãos, ele precisa me
tocar... Ah! Mas de que maneira? Não tinha coragem. Sei lá,
Deus me ajudou e como eu tinha uma sobrinha recém nascida, pensei:
tá aí a solução. E assim ocorreu, na hora do
banho meu filho ajudou-me e assim tocou pela primeira vez um corpo diferente
do seu. Ele já sabia que tinha diferença, mulheres tem seio
e homem não, mulher não tem barba.
Hoje falo com ele sobre
menstruação e do jeito que os filhos são gerados.
Acho que ele não tem problemas. Mas foi difícil". (filho
13 anos)
Compreensão e interpretação
O diálogo do silêncio X o silêncio do diálogo
O que significa esse silêncio?
Que pistas nos fornece a "não palavra" em direção
à compreensão da sexualidade de deficientes visuais? À
primeira vista poder-se-ia se pensar que o silêncio "nada" diz, já
que não se vale das palavras. No entanto, numa observação
mais acirrada do fato, percebemos que esse "nada" é permeado por
fissuras recheadas de sentidos e sentimentos. Segundo Orlandi (1992:49),
"o silêncio significa esse 'nada' se multiplicando em sentidos: quanto
mais falta, mais silêncio se instala, mais possibilidade de sentidos
se apresenta".
Isto significa que ao dizerem
que não sabem falar "disso", aquelas mães reticentes estão
falando daquilo que, para elas, é proibido e censurado. E para compreendermos
a razão da proibição e a causa da censura, faz-se
necessário remeter-nos a outro discurso,ou seja, o da repressão
sexual e o da moral conservadora, que, por sua vez, do modo como hoje conhecemos
esses discursos, estão eles ancorados na origem da família
burguesa, a qual, nos dizeres de Chauí (1980, págs. 129-31),
está sob a regulamentação do Estado, que vem através
dos tempos consolidando e controlando os tipos variados de regime de contrato
de casamento, bem como os referentes a sua dissolução, o
que envolve a elaboração de leis sobre o aborto, adultério,
pensão familiar, partilha de bens, entre outros.
Nesse sentido, a família
é também uma instituição política que,
em parceria com a igreja, estabelece as normas e códigos de conduta,
os quais, interiorizados desde tenra idade, incumbem-se de realizar um
amalgama, cujos elementos presentes são as proibições,
interdições e permissões, os quais, materializados
em práticas sociais, demarcam os limites e o como devemos expressar
a afetividade, o erótico, ou seja, a nossa sexualidade.
Os dados estão lançados,
a censura instalada. No entanto a ousadia de nossos desejos se faz presente
no mais dos "insignificantes" gestos e pensamentos.
O "silenciamento" dessas
mães de deficientes visuais não representa garantia de que
seus filhos não estejam recebendo uma formação sexual.
Ao contrário, recebem-na por intermédio de gestos, timbre
da voz, comentários sobre os fatos que ocorrem no dia-a-dia, e mesmo
o modo como a linguagem do toque é vivenciada no universo familiar.
Tudo isso demarcando o limite entre o lícito e o ilícito,
o permitido e o proibido; enfim a interiorização da repressão
sexual ultrapassa o sentido da visão. Isto significa que a dificuldade
de tocar e de sentir sem preconceitos o próprio corpo nos é
legada historicamente e continua reeditada no presente, acompanhando-nos
com suas marcas tal como nossas impressões digitais.
O corpo materializa a presença
do humano no mundo e desse mundo participa carregando sua mente, sua capacidade
intelectual e emocional, numa relação dialética constante.
A sexualidade é a dimensão mais abrangente: somos o corpo
que temos, nele está contida a energia vital que nos remete à
origem do existir, dos instintos à transcendência de níveis
diferentes de experiências. Segundo Merleau Ponty (1971:168), "A
sexualidade é o que faz com que o homem tenha uma história.
Se a história sexual do homem dá a chave de sua vida, é
porque na sexualidade do homem se projeta sua maneira de ser com relação
ao mundo, isto é, com relação ao tempo e aos outros
homens".
Nesse contexto, o "não
dito" da maioria das mães revela a história da repressão
sexual e a história da deficiência, e a um só tempo,
reproduz o estigma de ser o deficiente visual desinteressante, assexuado
e deserotizado. Paradoxalmente, esse "silêncio" que habita essas
relações familiares não dá conta de conter
a ousadia de Eros que se manifesta , às vezes, até de forma
marginal. Talvez, por isso mesmo, Eros seja tão controlado, o que
não o impede de agir na clandestinidade. Parece até que a
censura, a repressão e o controle são ingredientes que o
motivam a subverter a ordem pré-estabelecida: as práticas
de incesto, sadismo, masoquismo, as pedofilias expressam as "fissuras"
da repressão sexual, isto sem falarmos dos amantes. Até mesmo
os "intermezzos de amor" revelam tal ousadia.
Como nos dizeres de Lúcia
Castelo Branco (1987:11); "É curiosa a flexibilidade de Eros. Com
sua onipresença de deus, ele consegue sempre estar em toda parte,
camuflado sob variados disfarces, máscaras sociais que lhe garantem
livre trânsito, mesmo nos regimes mais autoritários".
Essa sua flexibilidade e
ousadia visualiza a sexualidade por um prisma dinâmico, dialético,
em que, apesar de códigos, estatutos, leis, tabus e preconceitos
para submetê-la a uma padronização, a sua prática
revela que vez ou outra Eros, sorrateiramente, se desloca dos domínios
da repressão e da hipocrisia e se coloca como mobilizador de relações
afetivas, que almejam trilhar pelos caminhos da compreensão, do
diálogo e entendimento, sem falarmos na criatividade que se faz
presente tanto nas artes quanto nas ciências. Seu poder não
somente abre as portas dos sonhos que alimentam e alicerçam, a um
só tempo, os grandes projetos, como é capaz de eternizar
o presente.
Nessa perspectiva, o discurso
de Júlia oferece pistas desse caminhar pelas trilhas do diálogo
com vistas à compreensão.
"Após eu acreditar
que meu filho era cego, pensei... Ele precisa receber o que há de
melhor em relação a tudo" (grifo meu); "... cego vê
com as mãos", "ele precisa saber que homem é diferente de
mulher".
Essa postura mostra que
Júlia, após não negar que o filho era portador de
deficiência visual, não negou também a possibilidade
de ele "receber o que há de melhor em relação a tudo".
Esse modo de relacionar-se
com a deficiência revela que Júlia percebeu e concebeu o filho
como um todo, e não somente na sua incompletude, postura essa, aliás,
adotada geralmente pelos portadores de visão, que comumente ao olhar
para o deficiente vêem apenas a sua deficiência, ou seja, o
que lhe falta.
O discurso de Júlia
possibilita um deslocamento desse olhar preconceituoso, no qual se podem
mesmo buscar pistas para uma reflexão sobre a importância
de as relações familiares se fazerem de um modo mais autêntico
e menos preconceituoso. Parece-nos que a sensibilidade e a sinceridade
foram os lemes que conduziram Júlia a relacionar-se com seu filho
deficiente. Sua transparência em dizer ao filho suas dificuldades,
por não saber como orientá-lo sexualmente, facilitou o diálogo,
condição "sine qua non" para estabelecermos laços
perenes.
Esse modo de ser descoloca
as interdições, os tabus, a hipocrisia, os sentimentos de
culpa que, materializados em práticas sociais, nos têm legado
seqüelas, que nos acompanham por toda a existência. Haja vista
nossa dificuldade de sentir prazer em tocar o próprio corpo. Em
geral percebemos o corpo por intermédio da dor, desconforto e desprazer,
resquício, quem sabe, dos idos tempos de flagelação.
Nesse sentido, o discurso
de Júlia possibilita novos horizontes em relação ao
modo de lidarmos com a sexualidade do deficiente visual. "Cego vê
com as mãos" e, acrescento, os portadores de visão precisariam
aprender essa lição.
A fala de Júlia lança
também um questionamento em relação aos estigmas e
preconceitos que solapam e corroem a possibilidade de o humano ousar lidar
prazerosamente com sua sexualidade. Significa ainda desmitificar o corpo
que foi e ainda é visto pelo discurso moralista como a sede dos
sentidos "depravados", que, ancorado na "visão platônico-cristã,
dissocia o amor espiritual do amor carnal e associa sexo ao pecado" (Aranha,
M.L.A. e Martins, M.H.P., 1986:361). Os discursos de Filô, Rô,
Manaí, demarcam essa visão pecaminosa que é atribuída
ainda hoje ao corpo.
Outro aspecto que os discursos
fazem emergir é o de que as dificuldades vivenciadas por essas mães
em torno de questões ligadas a sexo, não ocorrem somente
por serem mães de deficientes visuais... Jô diz: "Não
sei falar (de sexo), nem para os meus filhos que enxergam, para cego então...
é um problema".
O problema está centrado
em questões culturais e ideológicas que dizem respeito à
realidade social e política da instituição familiar
que, por sua vez, repete na educação da criança portadora
de deficiência visual não só o estigma de incapaz,
como o de desinteressante, assexuado. Nesse sentido, são punidos
em dose dupla.
Os discursos são
altamente reveladores e deles brotam pistas para um revisar de nossas leis,
códigos e normas de boa conduta. Lança ainda um apelo à
sociedade no sentido de rever seus padrões de "normalidade", como
também o de estética, isto sem falarmos que o "modus vivendi"
de considerarmos o sexo somente nos seus aspectos biológicos não
tem dado conta de conter a flexibilidade e ousadia de Eros que, com seus
disfarces, trafega sorrateiramente pelos caminhos do segredo e da clandestinidade.
Afinal de contas a simbolização é a sua "grife", a
fantasia e os sonhos seus aliados sem fronteiras.
Horizontes
Ao lançar um olhar
à trajetória desta viagem, desde os idos tempos da história
dos deficientes à fala velada da sexualidade, sinto que é
preciso retirar a viseira estigmatizadora que permeia a relação
entre os dotados de visão e os portadores de deficiência visual,
uma vez que o "diálogo do silêncio" assinalou e demarcou sérias
e profundas dificuldades das mães ao abordar assuntos relacionados
a sexo. Nota-se que as barreiras ocorreram não só, mas também,
porque as mães não sabiam o que falar, em nível de
informação, o que, por si só, favorece o silenciamento,
mas a moral repressora que habita os recônditos do nosso ser encarrega-se
de marcar, com distanciamento e vergonha, uma relação que
poderia vir a ser de esclarecimento, aproximação, compreensão
e imbuído de autenticidade.
Parece-me que chegou a hora
de encararmos Eros como nosso aliado, olharmos, quem sabe, para o caminho
percorrido por Júlia e, com base na sua caminhada, vasculharmos
nossas relações familiares, valendo-nos de uma reflexão
sobre a hipocrisia e inautenticidade que permeia não só o
modo de lidarmos com a sexualidade do(s) portador(es) de deficiência
visual, mas essencialmente com a nossa.
Com isto quero dizer que
uma das pistas para nos aliarmos a Eros é re-visarmos o nosso modo
de lidarmos com essa nossa tão familiar e desconhecida sexualidade,
olharmos com cuidado para a criança e para o adolescente que habita
em nós e que continuam reeditados em nossos gestos, toques, ao longo
do nosso tempo vivido, e que se fazem presentes no nosso modo de lidarmos
com a sexualidade do outro. Como nos dizeres de Bonder (1992:p. 195), "Para
podermos modificar uma atitude para com o outro, devemos entender que há
um outro em nós e nós no outro. Se conseguimos trabalhar
e crescer como indivíduos, não só nós nos beneficiamos,
mas o outro em nós também. A visão ou a relação
do outro em nós é engrandecida de tal forma que irá,
certamente, refletir no elemento nós-no-outro enriquecendo-o também.
E o resultado final deste movimento é a transformação
do outro no outro, ou de sua pessoa como a enxergamos".
Isto significa que nós,
enquanto pais, educadores, médicos, psicólogos, antes de
utilizarmos somente os manuais, as receitas, as teorias que nós
ensinam a falar sobre sexo, precisamos indagar sobre o como estamos vivenciando
a nossa sexualidade e com base nessa reflexão criarmos espaços
para uma educação sexual na busca da compreensão da
sexualidade do portador de deficiência visual.
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