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COMO CONSEGUIR VOLUNTÁRIOS E OBTER FUNDOS PARA CAMPANHAS COMUNITÁRIAS

 

Autores: Prof. Helena Flávia de Rezende Melo

Dra Alzira Maria Nicolini Delgado

"A MEDICINA É UMA CIÊNCIA SOCIAL E A POLÍTICA É A MEDICINA EM LARGA ESCALA " ( VIRCHOW, 1849)

INTRODUÇÃO

Com a afirmação acima colocada em destaque, Virchow antecipava a visão ampla com que a saúde é considerada nos dias atuais. Para se racionalizar a atenção à saúde no que se refere à definição de prioridade para gastos, aplicação de verbas disponíveis quase sempre insuficientes para abarcar todas as áreas, além da necessidade de aumento de cobertura e resolutividade dos serviços e programas ,é fundamental que se valorizem e se discutam alguns aspectos relativos ao trabalho voluntário, ao financiamento de projetos comunitários e ao envolvimento dos setores governamentais e não governamentais neste processo.
Já se admite hoje, com quase unanimidade, a importância dos trabalhos multidisciplinares e multiprofissionais para racionalizar a atenção à saúde em níveis de complexidade crescentes, do nível primário ao terciário, num processo de decisão política muitas vezes moroso e com interrupções sucessivas. Nesta busca é que o trabalho voluntário assume importância inquestionável e que deve ser ampliado e aperfeiçoado, atuando como catalizador de atividades de promoção da saúde que não podem ser adiadas, e mesmo forçando autoridades responsáveis à tomada de decisão mais rapidamente.

O HOMEM SOCIAL - A MOTIVAÇÃO

O homem caracteriza-se pela inteligência e pelo poder de escolher seu próprio destino, traçar metas e definir-se perante a realidade. Uma comunidade é formada por pessoas que convivem dentro de uma forma de organização e coesão social, cujos membros partilham, em maior ou menor grau, características políticas, econômicas, sociais e culturais, bem como interesses e aspirações.
Participação comunitária é o processo pelo qual indivíduos e famílias assumem a responsabilidade pela saúde e bem estar próprios e da comunidade, contribuindo para o desenvolvimento pessoal e coletivo.
Paralelamente, todo ser humano necessita de motivos para fazer algo que lhe demande tempo e esforço. Antes de começar a trabalhar por certos objetivos e metas, há necessidade de se encontrar algum sentido pessoal neles. A motivação, no sentido psicológico, é a tensão persistente que leva o indivíduo a alguma forma de comportamento visando à satisfação de uma ou mais necessidades . Estas necessidades podem ser:
- fisiológicas - de alimentação, de sono, abrigo, repouso
- segurança - perigo de doenças,incerteza de desemprego,roubo
- sociais - relacionamento, aceitação, afeição,amizade, consideração
- estima - necessidades do ego: orgulho, auto-respeito; necessidades de status
- auto-realização - síntese das anteriores, sempre em estado de necessidade crescente, para realização de seu potencial no sentido mais elevado do termo, para auto-satisfação
Para a motivação, é necessário o envolvimento das pessoaos e ações de manutenção para que o processo de engajamento em atividades filantrópicas seja permanente. Uma das maiores dificuldades para continuidade destes trabalhos é criar estimulos que levem a existir motivação em nível suficiente para justificar um envolvimento duradouro dos indivíduos e da comunidade como um todo.
O envolvimento pode ser obtido através dos estimulos oriundos das atividades sociais e educativas frequentes e criativas, de métodos de comunicação eficientes entre todos os participantes, divulgando adequadamente temas, reuniões e resultados de projetos realizados. Alguns pré requisitos básicos do envolvimento em processos de promoção da saúde na comunidade devem ser discutidos entre os interessados em participar de atividades comunitárias, a saber:
- comprometimento com a justiça social e econômica : saber que a "saúde para todos no ano 2000" depende de políticas e medidas mais concretas no dia a dia, e de uma crença interior de que esta meta é real e compartilhada entre os voluntários
- convicção: todos participantes desde a coordenação até a equipe de campo devem estar convencidos da validade do projeto em que se envolveram
- crédito ao voluntariado : apesar de não remunerado, o trabalho voluntário acrescenta muito do ponto de vista técnico e de continuidade a qualquer iniciativa de promoção da saúde, efetivando, na prática, o trabalho multiprofissional.
- envolvimento pessoal : o envolvimento de cada um é pessoal e intransferível, seja qual for a atividade desenvolvida na equipe
- continuidade : é imprescindível um esforço constante no sentido de forçar mudanças de comportamento na comunidade trabalhada, de forma a tornar permanentes os ganhos obtidos durante o projeto específico
- retorno à comunidade : a todos os setores da comunidade deve garantir-se uma via de comunicação efetiva quanto ao retorno das metas alcançadas, bem como a valorização de cada um e de sua participação para atingir-se o objetivo proposto
- descompromisso de credos : os compromissos políticos ou religiosos não devem tornar-se barreiras à efetivação das metas definidas para um trabalho específico, nem favorecer a divisão das equipes de trabalho.
As atividades comunitárias necessitam, também, de definições precisas quanto aos seus objetivos, duração e benefícios a serem concedidos, de forma a deixar claro aos participantes em que tipo de projeto estão se envolvendo. Alguns conceitos importantes devem ser lembrados neste sentido:
- população alvo : deve ser claramente definida a parte da população a ser atingida, para programar as ações de forma efetiva ( programas com crianças, idosos, gestantes...)
- área alvo : como geralmente recursos materiais e humanos são escassos, devem ser definidas geograficamente as áreas de atuação que se ampliam progressivamente ( iniciar em um bairro, passar para os próximos segundo um cronograma, etc...)
- integração à comunidade : nunca deixar de utilizar o sistema local já desenvolvido para dar alguma resposta à necessidade de saúde que será abordada, procurando incorporar as rotinas bem sucedidas e colaborando no aperfeiçoamento das demais.
- serviços gratuitos : tanto as atividades educativas quanto as assistenciais não devem utilizar-se de rotinas onde barreiras econômicas signifiquem que não sejam atingidos os objetivos inicialmente definidos.
Algumas organizações de trabalhadores voluntários já estão criadas em países onde o este tipo de envolvimento comunitário já é mais estruturado e culturalmente incentivado. Na Inglaterra existe uma Assossiação Nacional chamada "National Association of Volunteer Bureaux", cujo estatuto apresenta alguns ítens que aqui reproduzimos:
- os voluntários devem ter uma idéia clara das atividades e responsabilidades das tarefas a serem desenvolvidas
- os voluntários devem saber quem é seu supervisor e seu grupo de apoio e retaguarda.
- devem tomar parte do processo de discussão e elaboração do programa a ser desenvolvido
- os voluntários não devem trabalhar sob nenhuma pressão moral que seja contrária a seus princípios
- os voluntários deverão proteger-se de forma adequada de riscos que possam surgir ao trabalhar como voluntários
- não deverão ter perda financeira pelo voluntariado, devendo receber pelos gastos realizados para a execussão de suas tarefas
- os voluntários não devem ser utilizados em atividades que tenham sido exercida por indivíduos assalariados
- a relação entre os voluntários e os profissionais assalariados durante um projeto deve ser complementar e de benefício mútuo, com as responsabilidades e áreas de atuação bem definidas
- o trabalho voluntário deveria ser uma atividade geradora de satisfação, podendo os indivíduos, sob apoio e supervisão adequados, ampliar ou modificar sua área profissional.

COMO FINANCIAR AS ATIVIDADES COMUNITÁRIAS

Principalmente para aqueles que estão no início de atividades comunitárias e que precisam conhecer algumas diretrizes básicas para organizar o financiamento de projetos, alguns pontos devem ser levados em conta:
n a experiência só se sedimenta a partir de tentativas e trabalhos sucessivos, mesmo que a primeira tentativa de obter fundos para um projeto seja falha; desta forma, nunca se deve encarar como disperdício o esforço e o tempo dispendidos na preparação de um projeto
n deve-se buscar apoio de pessoas mais experientes para melhorar o que for julgado como ponto fraco do projeto, e estas parcerias frequentemente são ponto chave para trazer credibilidade e sucesso na fase de levantamento de fundos.

Uma vez identificada a área de atuação para um projeto, deve-se identificar qual o melhor segmento para abordagem como fonte de financiamento . Alguns projetos podem se adequar igualmente ao setor público ou privado, mas deve-se considerar as condições atuais para a implementação da idéia na opção de qual setor deve ser abordado com maior chance de sucesso.
Basicamente, o setor privado prefere não se envolver em áreas onde já existe uma substancial verba pública investida ou disponível, por razões óbvias. Também é importante que o Projeto apresente características de continuidade e de ser economicamente auto-sustentado com o tempo. Outras diferenças entre os dois setores podem ser identificadas, e estão listadas a seguir quanto às vantagens e desvantagens de ambos:

DIFERENÇAS ENTRE APOIO FINANCEIRO DOS SETORES PÚBLICO E PRIVADO

VANTAGENS
PÚBLICO PRIVADO

OBJETIVOS DEFINIDOS PELA LEGIS- 1- ENFOCA ASSUNTOS EMERGEN-
LAÇÃO TES, INTERESSES ESPECIAIS

FOCALIZA AÇÕES DE IMPACTO EM 2- FREQUENTEMENTE PARCERIAS
GRANDES GRUPOS POPULACIONAIS COM VÁRIAS FONTES DE FINAN-
CIAMENTO

3- TEM A GRANDE PARCELA DAS VERBAS 3- ALGUNS PODEM DOAR GRANDES
QUANTIAS DE DINHEIRO

MAIS ACOSTUMADOS A GRANDES 4- MELHOR FONTE PARA INÍCIOS
CONTRATOS EXPERIMENTAIS E SIMPLES

5- MAIS ACOSTUMADO A ARCAR COM 5- PROJETOS NÃO PRECISAM SER
CUSTO TOTAL DO PROJETO COMPLEXOS OU LONGOS

6- TEM NORMAS E FORMULÁRIOS CO- 6- MAIS FLEXÍVEIS PARA RESPON-
NHECIDOS, RIGIDEZ EM PRAZOS DER NECESSIDADES/CIRCUNS-
TÂNCIAS

7- MUITOS FUNCIONÁRIOS, FONTE PARA 7- RARAMENTE EXIGÊNCIAS BU-
ASSISTÊNCIA TÉCNICA ROCRÁTICAS P/ ADMINISTRAR
A VERBA

8- RECURSOS DISPONÍVEIS PARA GRAN- 8- TEM PRESTÍGIO, STATUS
DE QUANTIDADE E VARIEDADE DE
ORGANIZAÇÕES

PODE INSTALAR AUDITORIA SE REGRAS 9- PODEM AJUDAR COM OUTROS
NÃO SÃO SEGUIDAS RECURSOS ALÉM DE VERBA

10- MAIS INFORMAIS,MAIS PARA
NECESSIDADES LOCAIS
 
 
 

DIFERENÇAS ENTRE APOIO FINANCEIRO DOS SETORES PÚBLICO E PRIVADO

DESVANTAGENS

PÚBLICO PRIVADO

MAIS BUROCRÁTICO 1- A DOAÇÃO ,EM MÉDIA ,É
MENOR

2- OS PROJETOS TÊM QUE SER MAIS 2- PRIORIDADES MUDAM RAPI-
PROLONGADOS DAMENTE, DIFÍCIL PREDIZER
CONTINUIDADE

3- COM FREQUÊNCIA EXIGEM CONTRA 3- QUEM SOLICITA POUCO INFLU-
PARTIDA DA INSTITUIÇÃO SOLICITANTE ENCIA NAS DECISÕES

MUITOS REQUISITOS A CUMPRIR AO 4- INFORMAÇÕES DAS POLÍTICAS
RECEBER A VERBA INTERNAS DIFÍCEIS DE CONSE -
GUIR

5- TENDÊNCIA A FAVORECER INSTITUI- 5- EM GERAL NÃO COBREM CUS-
ÇÕES JÁ CONHECIDAS TOS TOTAIS E OS INDIRETOS

6- DIFÍCIL ACEITAR NOVAS IDÉIAS OU 6- POUCOS FUNCIONÁRIOS/VISI-
ABORDAGENS ARRISCADAS TAS AO LOCAL LIMITADAS

MUDANÇA DE TENDÊNCIAS POLI´TICAS/ 7- MOTIVOS POUCO CLAROS PA-
INSEGURANÇAS RA REJEITAR PROJETOS/DIFI -
CULTA NOVAS TENTATIVAS.

Para a bordagem do setor público, cada equipe de projeto deve inteirar-se das exigências e áreas de atuação disponíveis na área alvo do projeto para selecionar ou não esta fonte como a principal e/ou inicial de financiamento.
Já para o trabalho voluntário, que mais se identifica com necessidades específicas e próximas da comunidade, o setor privado deve ser privilegiado para uma abordagem inicial.
A história da filantropia institucional ainda não foi descrita em sua totalidade, mas desde 1982 há relatos de pesquisas entre empresas do setor privado quanto aos motivos para seu envolvimento na solução de problemas da comunidade. Os resultados nos Estados Unidos, naquela época, apontavam para o seguinte:
n 59% achavam que o setor lucrativo da sociedade tinha uma responsabilidade ética de fazer contribuições anuais ao setor filantrópico
n outros motivos como interesse pessoal em artes, cultura, bem estar social e saúde para todos foram referido
n aparece também a importância de vender uma boa imagem pública da empresa
n uma pequena parcela citava o impacto da isenção de impostos para as doações

Atualmente, nos Estados Unidos, as atividades comunitárias empregam cerca de 9% da mão de obra, respondendo por quantias ao redor de US$ 490 bilhões anuais. Em países como a França as ONGs (Organizações Não Governamentais) empregam 6% da mão de obra, e na Alemanha, 5%.
No Brasil não há estatísticas deste setor, e, culturalmente, o trabalho voluntário é uma atividade recente em nossas comunidades. O setor empresarial teve contato com esta possibilidade mais precocemente que o cidadão comum, e em pesquisa realizada no Rio Grande do Sul pela ONG " Parceiros Voluntários", 74% dos candidatos a voluntários nunca se envolveram em atividade filantrópica. Entre eles, 23% são profissionais liberais e empresários, e apenas 3% são donas de casa. A grande maioria dos que participam com alguma doação a projetos prefere manter fora da publicidade as cifras envolvidas, ao contrário do que ocorre nos países citados anteriormente.

EXEMPLOS DE ATIVIDADE COMUNITÁRIA E LEVANTAMENTO DE FUNDOS

A experiência da Universidade

Desde 1986 a Disciplina de Oftalmologia da Universidade Estadual de Campinas se envolve diretamente em Projetos Comunitários de Reabilitação Visual do Idoso, os Projetos Catarata. Nesta iniciativa, mais de 80 projetos foram realizados diretamente pela Unicamp ,desenvolvendo-se um modelo efetivo de parceria de instituições públicas (Universidade e Prefeituras) e da comunidade (comércio, sindicatos, clubes de serviço, hospitais, médicos) para a detecção dos cegos idosos e realização da cirurgia de catarata em todos os necessitados. Estes projetos modificaram muito, nos últimos 10 anos, a consciência de autoridades, da população em geral e dos oftalmologistas em particular, quanto à importância do trabalho comunitário, levando à sua proliferação por todo o Brasil. Hoje já foram envolvidos mais de 400 municípios, com mais de 1,5 milhões de pessoas com 50 anos de idade ou mais cobertos pelos programas educativos de prevenção e reabilitados da cegueira pela doação de óculos e realização da cirurgia da catarata.
Uma conquista inquestionável desta atividade, que se aperfeiçoou com os anos, foi a recente inauguração de um Hospital Regional de Olhos no município de Taquaritinga, estado de São Paulo. Os Lions Clubes tomaram para si a incumbência do levantamento de fundos para a construção do Hospital e, em 3 anos, conseguiram realizar este projeto com verbas internacionais da Fundação Lions Internacional,doações de empresários locais, bem como com promoções sociais, como rifas, jantares e shows, com o apoio total da comunidade por uma obra de inquestionável valor local e regional. A Universidade ativamente responsabilizou-se pela parte administrativa e de suporte técnico material e humano.
 
 

A experiência com o Setor Privado

Um outro exemplo da atividade comunitária aliada ao setor privado são os Projetos Catarata realizados pela parceria de empresas dos mais diversos setores e oftalmologistas locais, contato este facilitado pela Helen Keller International (HKI). Trata-se de uma organização sem fins lucrativos com sede em Nova York e que atua em 27 países na área do apoio técnico para o desenvolvimento de programas de prevenção de cegueira. No Brasil desde 1994 tem apresentado ao setor privado uma proposta de patrocínio para projetos catarata, onde as empresas atuam com a doação de fundos para cobrir as despesas logísticas da campanha e médicos, as prefeituras e a comunidade levam a cabo o mesmo modelo desenvolvido pela Unicamp em 1986. Como o envolvimento dos funcionários da empresa é muito grande nas etapas de organização e de seguimento, a consequência natural é de que estas empresas se tornem doadoras rotineiras para as comunidades onde suas fábricas ou unidades estão localizadas, além de sensibilizarem diretamente novos empresários a se engajarem na atividade filantrópica. Nestes moldes já foram realizados projetos com McDonalds (3), Chase Manhattan Bank (2), White Martins(2), Gerdau (1), Coimbra-Frutesp (2), entre outros, com mais de 3000 idosos recuperados da situação de cegueira. É um modelo que tende a se proliferar rapidamente à medida que mais médicos estejam disponíveis para suas comunidades e mais empresas percebam os benefícios institucionais imediatos devido à sua participação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Chiavenato, I. - Introdução à teoria geral da Administração (cap 13). São Paulo, Makron Books do Brasil Editora Ltda, 1993.
Gomes,M.T. - Eles vão para o céu? O que leva executivos a dedicar tempo, talento e dinheiro à filantropia. Revista Exame, ano 30, nº 13, 1997.
Hall,M. - Getting Funded: a complete guide to proposal writing. Portland, Continuing Education Publications, Portland State University,1988.
Help Age International - Ayuda a la ancianidad para el desarrollo. Horizontes 39, Junio 1996.
Kleczkowski,BM; Elling,RH; Smith,DL - Health system support for primary health care. Geneva, WHO Public Health Papers nº 80, 1984.
World Health Organization - Formulating strategies for health for all by the year 2000: guiding principles and essential issues. Geneva, Health for All Series nº2, 1979.

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