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PERFIL DA DEFICIÊNCIA VISUAL

EM

CRIANÇAS E ADOLESCENTES

 

MARIA APARECIDA ONUKI - HADDAD

MAYUMI SEI

ANA PAULA BRAGA

 

 

1. INTRODUÇÃO
 

A baixa visão na infância leva a prejuízos no desenvolvimento motor, emocional, educacional e social (1). A avaliação transdisciplinar da criança portadora de deficiência visual, por profissionais da área de saúde e da educação, leva a detecção de suas necessidades especiais. O sucesso de programas de habilitação e reabilitação resulta do apoio desses profissionais ao deficiente visual e à sua família, desde o momento do diagnóstico.
A identificação do perfil da população infantil com baixa visão é primordial para que: 1) programas de atendimento ao deficiente visual correspondam às suas necessidades reais, 2) profissionais da área de saúde e educação estejam melhor preparados para atender suas peculiaridades, 3) programas de prevenção possam ser instituídos, 4) serviços de apoio e esclarecimento a pais e familiares sejam desenvolvidos, para seu maior engajamento na questão da deficiência.
Apesar de 90% das pessoas deficientes visuais estarem distribuídos nos países em desenvolvimento (1) , dados da prevalência e causas de baixa visão em crianças são pouco conhecidos (dados incompletos, diagnósticos não realizados, difícil acesso da população aos centros de atendimento) (1) . No Brasil, estudos como os de Kara José (1988) e Leal (1995) têm contribuído para o reconhecimento dessa população.
O presente trabalho tem por objetivo estudar, retrospectivamente, 1465 pacientes que foram avaliados no Serviço de Oftalmologia da Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual - Laramara, no período de Janeiro de l991 a dezembro de l996. Foram analisados dados referentes a: faixa etária, sexo, procedência, acuidade visual, diagnóstico e deficiências associadas.
II. MATERIAL E MÉTODO
 
 

Foram revisados 1465 prontuários de pacientes atendidos no Serviço de Oftalmologia da Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual, no período de janeiro de l991 a dezembro de l996.
Os aspectos estudados são relativos a dados da primeira avaliação oftalmológica, a saber: idade, sexo, acuidade visual corrigida no melhor olho, diagnóstico , presença de outras deficiências associadas à visual e procedência.
Quanto à idade, os indivíduos foram divididos em 7 classes, de 0 a 20 anos, com intervalos de 2 anos.
Em relação à acuidade visual, os indivíduos foram distribuídos em 7 categorias, sugerridas por Colenbrander (1996) e baseadas na 9 Revisão da Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde: 1) acuidade visual de 20\12 a 20\25 , 2) de 20\30 a 20\60, 3)de 20\80 a 20\160, 4)de 20\200 a 20\400, 5) de 20\500 a 20\1000, 6) de20\1250 a 20\2500, 7) ausência de percepção de luz.
Os valores de acuidade foram obtidos a partir da aplicação de: 1) cartões de acuidade de Teller para indivíduos não informantes, 2) cartões de acuidade da Dra. Lea Hyvarinen - Lea Symbols, para crianças informantes não alfabetizadas e 3) cartão de acuidade da Lighthouse Inc. - Ferris- Bailey ETDRS (early treatment diabetic retinopathy study) modificado, para pacientes alfabetizados.
Os dados referentes a diagnóstico , ocular e sistêmcio, foram distribuídos segundo a ocorrência.
Casos com outras deficiências associadas à deficiência visual foram divididos nas seguintes categorias:
1) deficiência motora e deficiência visual
2) deficiência mental e deficiência visual.
3) deficiência auditiva e deficiência visual.
4) deficiências motora , mental e visual.
5) deficiências auditiva, mental e visual.
6) deficiências motora, auditiva e visual.
Para o estudo da procedência, foram considerados os estados da federação.
III. RESULTADOS
 
 

O gráfico 1 mostra a distribuição dos indivíduos atendidos em relação à faixa etária. O maior número de casos está na faixa de 3 a 5 anos (29,77%), seguida pela faixa de 6 a 8 anos (19,93%).
O gráfico 2 mostra a distribuição dos indivíduos quanto ao sexo: 56,65% masculino e 43,35% feminino.
O gráfico 3, de classes de acuidade visual, revela que há dois picos de maior frequência: de 20\80 a 20\160 (32%) e de 20\1250 a 20/2500 (26%).
A tabela 1 mostra a distribuição quanto ao diagnóstico oftalmológico. A atrofia do nervo óptico foi a doença ocular mais freqüente (28,6%), seguido pelo estrabismo (11,46%),coriorretinite por toxoplasmose (10,44%), catarata congênita (7,3%), deficiência visual cortical (6,41%) e retinopatia da prematuridade (5,52%) .
A tabela 2 mostra a distribuição de pacientes com doenças sistêmicas associadas às doenças oculares (58,43%). As encefalopatias crônicas não evolutivas (22,32%) e doenças infecciosas e parasitárias (16,6%) foram as mais importantes.
O gráfico 4 mostra a distribuição de pacientes com outras deficiências associadas à visual. A deficiência motora foi a mais importante (23,75%), seguida pela deficiência mental (4,91%).
O gráfico 5 relaciona os estados de procedência mais frequentes: São Paulo (86,48%), Rio de Janeiro (4,16%) e Minas Gerais (2,46%).
 

Gráficos nas páginas seguintes.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

TABELA I

DISTRIBUIÇÃO DOS PACIENTES QUANTO AO DIAGNÓSTICO OFTALMOLÓGICO
 

DOENÇA OCULAR NÚMERO DE PACIENTES %
atrofia do nervo óptico 419 28,6
estrabismo 168 11,46
coriorretinite por toxoplasmose 153 10,44
catarata congênita 107 7,3
deficiência visual cortical 94 6,41
retinopatia da prematuridjade 81 5,52
ametropias 69 4,7
malformações oculares 66 4,5
distrofias primárias da retina 63 4,3
nistagmo congênito 51 3,48
glaucoma congênito 29 1,97
retinoblastoma 7 0,47
outros 158 10,78
Total 1465
 
 
 
 
 

TABELA II

DISTRIBUIÇÃO DOS PACIENTES QUANTO AO DIAGNÓSTICO SISTÊMICO

DIAGNÓSTICO NÚMERO DE PACIENTES %
encefalopatia crônica não evolutiva 327 22,32
doenças infecciosas e parasitárias 243 16,6
eplepsia 109 7,44
hidrocefalia 68 4,64
neoplasias do sistema nervoso 13 0,88
outros diagnósticos 96 6,55
Total de pacientes 856 58,43

IV. DISCUSSÃO
 
 

A Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual presta, entre outros serviços, atendimento à criança e ao adolescente portadores de deficiência visual. Por esse motivo, o intervalo de idade observado foi de 0 a 20 anos. O maior número de casos, nas faixas etárias de 3 a 5 anos (29,77%) e de 6 a 8 anos (19,93%) , pode ser explicado pela facilidade em se observar deficits de desenvolvimento e da resposta visual nessa época (período pré-escolar e escolar). Vale, portanto, ressaltar a importância de programas de triagem, baseados na pesquisa da acuidade visual, aplicados pelos educadores.
Apenas 5,9% dos indivíduos eram cegos e 32% foram classificados como portadores de deficiência visual moderada. A maioria das crianças com deficiência visual possui algum grau de visão (1,6) ; muitas são consideradas cegas e não recebem os benefícios que o uso da visão residual poderia trazer ao seu desenvolvimento.
Alguns pacientes foram encaminhados pela comunidade sem avaliação prévia, o que justifica o fato de 2,25% dos casos term apresentado boa acuidade visual.
Uma vez que a faixa etária estudada é baixa e que o desenvolvimento visual é um processo contínuo, rápido no primeiro ano de vida e completo aos 9 - 10 anos (4) , estudo prospectivo dessa população quanto a seus níveis de acuidade visual e de outras funções visuais, como campo visual e sensibilidade ao contraste, deve ser realizado.
A atrofia no nervo óptico foi o diagnóstico ocular principal (28,6%). A alta frequência de doenças neurológicas explica o fato. Faye (1984) relatou a atrofia de nervo óptico como causa mais freqüente de baixa visão, no Serviço de Visão Subnormal da Lighthouse de Nova Iorque, no período de 1979 a 1983. Kara José (1988) aponta 12,14% e Leal (1995), 8%.
Os vários tipos de estrabismo (11,46%) foram considerados o segundo motivo para procura de atendimento. Pela fácil observação, na grande maioria dos casos, geram a procura pela avaliação e tratamento.
A coriorretinite por toxoplasmose corresponde à terceira causa de baixa visão (10,44%). As doenças infecto-contagiosas têm papel importante nos países em desenvolvimento (1) , o que justifica a necessidade da prevençào materno-infantil.
A catarata congênita (7,3%) é a causa mais freqüente de cegueira evitável na infância. É importante ressaltar a necessidade da intervenção cirúrgica na época adequada, da correção óptica e da terapia oclusiva que impedem a deprivação visual e favorecem o desenvolvimento das funções visuais.
A deficiência visual cortical pode ser causada por vários fatores como: hipóxia, anomalias cerebrais congênitas e infecções (6). Sua ocorrência de 6,4% pode estar relacionada ao alto índice de doenças neurológicas no presente estudo. Os casos de deficiência visual cortical têm aumentado consideravelmente (6) . É importante que o profissional esteja atento aos diferentes padrões de resposta visual dessas crianças (7) .
O termo deficiência múltipla refere-se à ocorrência de dois ou mais tipos de deficiência no mesmo indivíduo. Geralmente, há sobreposição entre os mesmos, o que dificulta seu diagnóstico.
Segundo Hyvarinen (4) , 70% das crianças com deficiência visual congênita têm outra deficiências associadas (motora, auditiva e mental). No nosso estudo, observamos 33,17%. A principal foi a deficiência motora (23,75%) e está correlacionada com alto índice de doenças neurológicas .
Crianças com deficiência visual podem ser erroneamente caracterizadas como deficientes mentais, devido à dificuldade que apresentam para a realização de tarefas. Esta tendência tem diminuído(4) . No nosso estudo, 4,91% dos indivíduos tinham deficiência mental associada.
Segundo Armitage (1995), 34,9% de crianças deficientes auditivas têm deficiência visual. A deficiência auditiva, por sua vez, ocorre em 10% das crianças com deficiência visual (4) . No presente estudo, observamos 2,1%. Esses achados justificam a necessidade de exames otorrinolaringológicos e audiométricos para deficientes visuais.
Segundo Warren (1984), há duas necessidades emergentes em relação à deficiência múltipla: 1) a avaliação integral do paciente para o reconhecimento de suas habilidades e 2) programas de habilitação específicos e efetivos para o padrão da deficiência.
Ressaltamos o grande número de indivíduos com doenças neurológicas e acometimento visual. As convulsões, decorrentes de lesões cerebrais são comuns entre os deficientes visuais (4).
A população atendida (86,48%) é predominantemente do estado de São Paulo. A existência de serviços de atendimento em outras regiões e a dificuldade de acesso ao nosso serviço, pela distância, podem ser os fatores determinantes para tal achado.
 

V. CONCLUSÕES
 
 

Podemos concluir que há necessidade de:

1) orientação contínua a profissionais da área pediátrica para que promovam a avaliação oftalmológica precoce. Procura-se evitar deficits irreversíveis decorrentes da intervenção tardia.
2) preparo de profissionais da educação e da saúde, para que identifiquem crianças com baixa visão, suas características , presença de outras deficiências e que forneçam pronta intervenção, com respeito às necessidades de cada indivíduo.
3) incentivo para a implantação de novos centros de atendimento à criança portadora de deficiência visual , nas várias regiões do país (facilitar o acesso da população a esses serviços).
4) traçar planos de prevenção na área da deficiência visual
5) realizar estudos sobre o perfil da deficiência visual no país, com maior coleta de dados. Facilitar a adaptação dos serviços de atendimento ao deficiente visual às suas necessidades e aumentar a eficácia do trabalho.
6) o trabalho com o deficiente visual deve envolver profissionais de várias áreas de atuação (sócio-clínico-educacional) e a família. A importante troca de informações e experiências, num trabalho conjunto, levará ao melhor desenvolvimento visual e global da criança .

VI. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
 

1. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE . O atendimento de crianças com baixa visão. São Paulo, 1994. 54p.

2. JOSÉ, N. K. ; CARVALHO, K. M. M.; PEREIRA, V.L.; VENTURINI, N.H.B.; GASPARETTO, M.E.F.; GUSHIKEN,M.T. - Estudo retrospectivo dos primeiros 140 casos atendidos na Clínica de Visão Subnormal do Hospital das Clínicas da Unicamp. Arq. Bras. Oftalmol. , 51: 65, 1988.

3. LEAL, D.B.; TAVARES, S.S.; VENTURA,L.; FLORÊNCIO,T. - Atendimento a portadores de visão subnormal: estudo retrospectivo de 317 casos. Arq. Bras. Oftalmol., 58: 439-42, 1995.

4. HYVARINEN,L. - O desenvolvimento normal e anormal da visão . São Paulo, sem data disponível. 60p.

5. FAYE,E.E. - The low vision child. In:_______________- Clinical low vision. 2.ed. New York, Little, Brown and Company, 1984. p.437-75.

6. CROSSMAN,H.L. - Cortical visual impairment presentation, assessment and management. North Rocks, The Royal New South Wales for Deaf and Blind Children, 1992. 76p . (Monograph Series, 3).

7. BAKER-NOBLES,L. ; RUTHERFORD,A. - Understanding cortical visual i impairment in children. The Am. J. Occup. Ther.,49: 899 - 903 , 1995.

8. ARMITAGE, I.M.; BURKE, J.P.; BUFFIN,J.T. - Visual impairment in severe and profound sensorineural deafness. Arch. Dis. Child., 73: 53 - 6, 1995.

9. COLENBRANDER, A. - What is in a name: more peoplo are blinded by definition, than by any other cause. Journal of videology, 1: 13-20, 1996.

10. WARREN, D.H. - What is known and what needs to be studied. In:___________Blindness and early childhood development. 2ed. New York. American Foundation for the blind, 1984. p.275-99.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

TÍTULO DA APRESENTAÇÃO: PERFIL DEFICIÊNCIA VISUAL EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES.

AUTORES: MARIA APARECIDA ONUKI - HADDAD
MAYUMI SEI
ANA PAULA BRAGA
 
 
 

RESUMO:
 

Os autores realizaram estudo retrospectivo de 1465 casos atendidos na Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual - Laramara.
Foram observados: maior numero de crianças nas faixas etárias de 3 a 5 anos (29,77%) e de 6 a 8 anos (19,93%).
56,65% dos pacientes eram do sexo masculino e 43,35% do sexo feminino.
A classe de acuidade visual mais freqüente foi a de 20\80 a 20\160 (32%).
A atrofia do nervo óptico foi a doença ocular de maio ocorrência (28,6%), enquanto que encefalopatias crônicas não evolutivas foram o grupo de doenças sistêmicas mais observado (22,32%).
A deficiência motora foi a mais associada à deficiência visual (223,75%).
86,48% dos indivíduos eram procedentes do estado de São Paulo.
Os aspectos estudados são importantes para : 1) a elaboração de programas de atendimento ao deficiente que correspondam às suas necessidades, 2) o trabalho conjunto dos oftalmologistas com a família e profissionais da área de educação, através da divulgação dessas informações.

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